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Mãe cria pulseira para ajudar filho autista e vira empresária

Em fevereiro de 2016, após encerrar as sessões de radioterapia do tratamento contra um agressivo câncer de mama, Cristiane Carvalho, 38 anos, decidiu criar uma loja online de produtos que ajudam crianças – autistas ou não – a lidarem com suas emoções. Ela própria convive com o TEA (Transtorno do Espectro Autista – veja links sobre o Dia Mundial do Autismo no final deste texto) no dia a dia. Há três anos, um de seus filhos foi diagnosticado com a Síndrome de Asperger e desde então Cristiane se dedicou a pensar em maneiras para facilitar a comunicação entre crianças e pais na mesma situação. Em outubro do ano passado, a TeraPlay (conheça aqui), e-commerce de produtos terapêuticos e educativos, estaria no ar.

Cristiane abandonou a carreira no setor público há 10 anos, depois de se formar em Direito na USP e fazer Magistério, para se tornar mãe em tempo integral. Mas, foi o tratamento do seu câncer e o diagnóstico do primogênito que a levaram a empreender. Ela conta que, ao pensar em abrir o primeiro negócio, não cogitou buscar seed capital, investidor-anjo ou financiamento coletivo: “Me considerava apenas uma pessoa comum, com muitas ideias na cabeça”. O investimento para tirar a loja do papel foram os mesmos 30 mil reais que ela reservou para a sua cirurgia de reconstrução mamária. Como o convênio de saúde arcou com todos os custos do procedimento, o dinheiro foi redirecionado para colocar a loja no ar. Ela diz:

“Passei o tratamento inteiro refletindo por que eu tinha adoecido, o que eu deveria mudar. Quando fiz as pazes comigo mesma, as ideias brotaram”.

Como mãe, Cristiane já havia se debruçado em uma série de livros e feito cursos para compreender melhor o autismo. O resultado de tantas pesquisas foi o seu primeiro livro infantil, Faísca explica as Emoções, no qual um cachorro (o personagem principal) orienta o pequeno leitor a administrar sentimentos como alegria, tristeza, raiva e medo.

O título foi publicado pela CR8Editora em outubro de 2016 e hoje está à venda na TeraPlay por 29,90 reais. Com ele, na época, foi lançado um manual de apoio e dicas práticas (para download gratuito na loja), escrito em parceria com o psicólogo Renato Gallo, especialista em hiperatividade, TEA e Transtorno Desafiador Opositivo. O segundo volume do livro, Faísca Explica quando é bom pedir um tempo, atualmente está na gráfica e será lançado em breve.

A validação começou dentro de casa

Seis braceletes, nas cores preta, lilás, verde, azul, vermelha e preta novamente. Cada um deles tem o desenho de um rostinho amarelo e vermelho, representando uma emoção diferente

Os braceletes coloridos são utilizados na educação das pessoas com autismo, unindo as cores com imagens e sentimentos do dia a dia

Além das publicações, Cristiane vende na TeraPlay – batizada assim por juntar “terapia” e “play” (brincar, em português) – um outro produto autoral: o Bracelete Emoções. Vendido por 22 reais, ele é uma pulseira de silicone para crianças comunicarem seu estado emocional por meio de emojis (figuras usadas em mensagens e redes sociais). Se a criança aponta um emoji que simboliza raiva, por exemplo, um adulto pode abordá-la de forma mais cuidadosa e conversar a respeito do que ela está sentindo.

Depois de não encontrar referências fora do Brasil, Cristiane decidiu desenvolver o produto por conta própria. Os demais itens disponíveis na TeraPlay – há também bolinhas anti-estresse, cadarços de silicone (que não precisam de nós), mordedores (usados para crianças que precisam de estimulação sensorial, por exemplo) e dados de emoções – também criados pela empreendedora, que diz testar todos no dia a dia:

“Criei o site para divulgar o meu trabalho, mas depois quis disponibilizar para outras pessoas produtos que me ajudam muito”.

O primeiro sinal verde, que daria a confiança que Cristiane precisava para investir no negócio, foi a popularidade dos primeiros Braceletes Emoções, produzidos em meados do ano passado. Ela conta: “A recepção foi surpreendente, tanto entre crianças autistas quanto fora do espectro”.

Falar sobre emoções não deveria ser tão difícil

Após frequentar grupos de apoio como a+mais, Associação Inspirare, Instituto Autismo e Vida, TEApoio e fazer cursos sobre o desenvolvimento do autista, a importância da educação emocional ficou evidente para Cristiane. Ela conta que pesquisou brinquedos, livros publicados no exterior e tudo o que lhe permitisse ajudar o filho. Todo esse tempo dedicada a entender as ações e reações do filho a fez chegar a uma conclusão:

“Reconhecer as emoções é um ponto chave para qualquer pessoa ter uma boa relação com os outros”.

Por este motivo, Cristiane diz que os produtos à venda na TeraPlay podem ser úteis para qualquer criança, não só autistas:

“As dificuldades emocionais são iguais para todos, só que autistas passam por elas num grau mais elevado”.

O processo de criação do negócio de Cristiane é resultado de um questionamento pessoal da empreendedora e mãe: Por que nunca se fala de educação emocional com as crianças? Na opinião dela, o modelo de ensino das escolas tradicionais é ultrapassado: “Ensina-se Português, Matemática, Física. Daí, lá na frente, no mercado de trabalho, o RH diz que a pessoa não consegue tolerar frustrações”.

Apesar da quantidade de informação disponível – em cursos, livros e na internet –, Cristiane diz que o estereótipo em torno do autismo ainda é um problema: “É fácil identificar e aceitar uma crise quando a criança se balança muito ou fica girando em torno de si mesma. Mas quando um Asperger está se portando bem e começa a gritar de repente, dizem que é falta de educação”.

Ela diz que leva em conta todos os aspectos que conhece do autismo para escolher os produtos à venda na Teraplay. Um deles é a disfunção no processamento sensorial.

“Algumas dessas crianças são hipersensíveis, sentem mais, ou hipossensíveis, sentem menos, manifestações com luz, barulho, toque”, conta. Por isso, é comum que crianças com autismo evitem tocar em certos materiais (como cobertores e bichos de pelúcia), não conseguem ficar com etiqueta na roupa, sentem-se incomodadas por costuras de meias, evitam brincar com areia, cola, argila, e têm dificuldade para comer alimentos pastosos ou granulados.

Compartilhar descobertas é um diferencial do negócio

Por ter morado em Genebra (Suíça) e Nova York (EUA), Cristiane tem facilidade em garimpar itens estrangeiros. Essa habilidade se mostrou útil na hora de importar da Escócia os mordedores de silicone de grau médico da Chewigen (marca reconhecida mundialmente), e os mordedores de silicone que se encaixam em lápis e canetas e evitam danos aos dentes e quebras dos aparelhos ortodônticos, vindos dos EUA. A exportação dos seus produtos autorais também faz parte dos planos da TeraPlay e pode começar pelo Canadá. Seu maior desafio, no momento, é baratear o frete para aumentar as vendas, ela conta: “Quero ajudar gente que não tem disponibilidade ou condições de buscar coisas fora do país”.

Por enquanto, Cristiane ainda não consegue viver da receita da TeraPlay e cuida da operação em casa, sozinha. Mas conta que o filho é seu braço direito em todo o processo de aprovação e criação de produtos para a empresa: “O olhar supercrítico dele é um selo de garantia em tudo o que faço”. Para uma mãe, este deve ser o melhor laboratório.

* Matéria de Marina Audi e fotos de Tania Kanaan, do site Projeto Draft (acesse aqui)

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