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Por que há alta de dengue todos os anos? Entenda os fatores

O Governo de São Paulo decretou situação de emergência para dengue nesta quarta-feira (19), após registrar mais de 100 mortes pela doença em 2025, com a previsão de que os casos continuem a crescer nos próximos meses. A dengue, considerada endêmica no Brasil desde a década de 1980, apresenta ciclos de epidemias cada vez mais intensos, impulsionados por uma combinação de fatores climáticos, ambientais e epidemiológicos.

Mudanças Climáticas e Ampliação do Habitat do Mosquito

Segundo especialistas, as mudanças climáticas desempenham um papel crucial no aumento dos casos de dengue. O aquecimento global tem ampliado significativamente as fronteiras do Aedes aegypti – mosquito responsável pela transmissão da doença. Estados que, há 10 ou 15 anos, não apresentavam casos, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, agora enfrentam surtos. Em locais historicamente afetados, como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, o aumento das temperaturas médias favorece a eclosão dos ovos do mosquito, intensificando a transmissão.

Além disso, as chuvas intensas, típicas do verão brasileiro, criam condições ideais para a reprodução do Aedes aegypti. A combinação de alta temperatura e elevada pluviosidade gera uma “conjunção perfeita” para a formação de criadouros, facilitando a eclosão dos ovos depositados em anos anteriores.

A Dinâmica Epidemiológica e os Sorotipos do Vírus

A dengue é causada por quatro sorotipos do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4), e a infecção por um deles confere imunidade apenas contra o mesmo sorotipo. Isso significa que, ao entrar em circulação novamente, um sorotipo que esteve ausente por muitos anos pode encontrar uma população sem imunidade específica. Atualmente, a circulação do sorotipo 3 (DENV-3) preocupa especialistas, pois ele não era identificado há mais de 15 anos. Essa situação deixa crianças, adolescentes e adultos sem contato prévio, aumentando a vulnerabilidade da população à infecção.

Fatores Epidemiológicos e Alternância de Epidemias

De acordo com Alexandre Naime, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e chefe de Departamento de Infectologia da Unesp, “desde 2021, uma epidemia vem sendo maior que a outra”. Essa alternância intensificada dos surtos evidencia que, além dos fatores climáticos, a dinâmica de circulação dos sorotipos e a imunidade parcial da população contribuem para a alta incidência da doença.

Prevenção: Vacinação e Medidas de Controle

Entre as principais estratégias para prevenir a dengue, a vacinação tem ganhado destaque. Desde dezembro de 2023, a vacina contra a dengue está incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Inicialmente voltada para pessoas com idade entre 10 e 14 anos, a faixa etária tem sido ampliada. Doses com validade de 2 meses poderão ser remanejadas para municípios não contemplados ou aplicadas em pessoas de 6 a 16 anos. Para vacinas com 1 mês de validade, a aplicação pode ser estendida até o limite etário especificado na bula, abrangendo indivíduos de 4 anos a quase 60 anos.

Outras medidas preventivas são essenciais para combater a proliferação do Aedes aegypti, como:

  • Uso de telas em janelas e repelentes em áreas de alta transmissão;
  • Remoção de recipientes que possam acumular água e servir de criadouros para o mosquito;
  • Vedação adequada de reservatórios e caixas d’água;
  • Manutenção regular de calhas, lajes e ralos;
  • Participação ativa da comunidade e fiscalização das ações de controle executadas pelo SUS.

Conclusão

A alta de dengue que atinge o Brasil anualmente é resultado de uma complexa interação de fatores ambientais, climáticos e epidemiológicos. O aquecimento global e as chuvas intensas expandem o habitat do Aedes aegypti, enquanto a alternância dos sorotipos, especialmente com o retorno do DENV-3, aumenta a susceptibilidade da população. Para enfrentar essa realidade, além das campanhas de prevenção e das medidas de controle, a vacinação se apresenta como uma ferramenta fundamental para reduzir o impacto da doença.

A situação de emergência decretada em São Paulo serve como um alerta para a necessidade de investimentos contínuos em prevenção e saúde pública, garantindo que a população esteja protegida e que surtos futuros possam ser contidos de forma eficaz.

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